segunda-feira, 21 de março de 2016

Ervas Daninhas Comestíveis

Portulaca oleracea L; família Portulacacea
Portulaca oleracea, L.
No Brasil, beldroega-de-comer, beldroega-de-horta; beldroega-pequena; beldroega-vermelha; bredo; bredo-de-porco;caaponga,porcelana,salasa-de-negro,verdolaca.
Descrição:
A beldroega é uma planta anual, herbácea, carnosa, prostrada e ramificada. Apresenta, às vezes, folhas e caules avermelhados, pela presença de antocianina, que dá cor as folhas, flores e frutos dos vegetais. Suas folhas são simples, alternadas ou opostas, na maioria das vezes, e de forma espatulada. As flores, solitárias ou não, situam-se no ápice dos ramos e apresentam coloração amarela. Seus frutos são capsulares, com muitas sementes, redondas, achatadas e escuras.
Origem
Embora se considere que a beldroega seja de origem europeia, uma planta conhecida atualmente no mundo inteiro. Seu uso como alimento data de tempos remotos, tendo sido degustada na Pérsia e na Índia. Naturalistas da Antiguidade também a mencionam como de uso comum na Grécia clássica. Provavelmente foi trazida para as Américas na primeira metade do século XVII, como verdura, tornando-se subespontânea, ou seja, adaptando-se bem e espalhando-se naturalmente, em quase todos os países.
Uso em medicina popular
A beldroega é rica em proteínas, vitaminas A,B e C , cálcio, fósforo e ferro. Ao longo dos séculos, foi empregada na cura do escorbuto. Sua mucilagem, substância viscosa, confere-lhe virtudes emolientes, tanto para uso interno quanto externo (tumores). É também depurativa, diurética e vermífuga.
Usos culinários
Esta planta pode ser aproveitada totalmente na cozinha, com exceção das raízes, que são amargas e duras. O caule e as folhas são crocantes e tem sabpor agridoce. Essas características são mais bem apreciadas quando caule e folhas são ingeridos crus, sob a forma de salada. A beldroega refogada também é deliciosa e seus talos e folhas podem engrossar caldos e sopas, substituindo a maisena. Suas sementes, embora pequenas, servem também à alimentação humana. A planta em frutificação deve ser arrancada, seca sobre pano e depois batida. As sementes são então moídas e misturadas ao trigo ou a outras farinhas, utilizadas no preparo de docves, bolos e pãeszinhos, As sementes de beldroega dão a essa mistura uma cor escura e um sabor peculiar.


Livro: Ervas Daninhas Comestíveis – autor desconhecido - 1943

quinta-feira, 17 de março de 2016

A História dos usos da Digitalis

A História dos usos da Digitális
Digitalis
Por toda a Europa ocidental os botânicos conheciam muito bem uma planta de porte ereto e flores em forma de campainha, hoje chamada de digitális. Muitos nomes teve ela antes do atual. Na Inglaterra medieval era a “floxes’ glew” ou “foxes’music”. Os escoceses tratavam-na de “dedos santos” ou “campainha de defunto”. E para os noruegueses era a “campainha da raposa”. Na França, “Luva de Nossa Senhora” ou “Dedos da Virgem”. Para os alemães “Capuz de dedo” ou “Dedaleira”, e com esta ideia na cabeça os botanicos latinizantes deram-lhe o nome de digitalis, vindo de digitus, dedo. Um destes botânicos, o bávaro Leonhard Fuchs, que viveu há 400 anos, fez mais que descrever a planta nas suas folhas, flores, caule, raízes, sementes e habitat. Convencido de seu valor medicinal, também lhe indicou os usos na pratica medica; era ótima para combater a hidropsia, para reduzir a inchação do fígado e ainda para atender ás “suspensões” das mulheres.
Mas esse arguto observador era tido apenas como um “florista” e, embora conhecesse bastante de medicina, os médicos do tempo nunca lhe deram atenção. Também não davam atenção a outros proclamadores de eficiência da “campainha de defunto” na redução da “barriga d’água” , homens como Gerrarde, que a usavam como emético, ou o holandês Dodoens, o qual  escreveu que “para os que tem água na barriga, ela põe fora o líquido, purifica o fluido colérico e desfaz a obstrução.
Os cientistas da botânica admiravam-se da diferença dos médicos por aquilo. O uso da digitalis já estava espalhadíssimo no povo inculto, tanto na Inglaterra como no continente. Essa gente nada sabia de medicina, mas sabia preparar cozimento de digitalis para os hidrópicos. Os médicos, porém continuam em branca nuvem.
Assim repelida durante séculos, a digitális afinal quebrou todas as barreiras e penetrou na fortaleza medica. Em 1722 foi admitida na grande farmacopeia de Londres, que é o “Who’s Who” das drogas aceitas na medicina; alguns anos mais tarde estava também nas farmacopeias de Edinburgo, de Paris e de Wurtemberg. A razão desse passo decorreu sobre tudo do brilhante testemunho do herbalista inglês William Salmon.
“A luva – de – Raposa”, descreveu o eminente cientista, “é quente e seca pelo menos no Segundo Grau, e é sulfurosa e Salina, Aperitiva, Abstersiva, Adstringente, Digestiva e Vulnerária, Peitoral, Hepática e Artrítica, Emética, Catártica e Analática...”Cura a tisica, mas tem que ser usada com muita cautela porque produz Fraqueza, induz a Vomitos e Purgas;


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943. 

sexta-feira, 11 de março de 2016

Os caçadores de micróbios e a quinina

A história da quinina e da luta da ciência contra a malária, empreendida há já trezentos anos. Foi uma história que se desenrolou de Madri a Lima, Londres a Paris, e percorreu os Andes, chegando até a Índia e a Ilha de Java. Mas essa história sofreu um desvio de rumo em 1879.
Até esse ano a malária era combatida as cegas. A quinina curava, mas ninguém sabia porque nem como, porque ninguém sabia qual era o transmissor da moléstia.
A partir de 1879, porém, os caçadores de micróbios entram em campo. Armados com as descobertas de Pasteur, Koch, Behring, Roux e outros, os bacteriologistas tomaram seus microscópios e declararam guerra aos agentes tropicais da morte.
Este é o Anofeles
Em 1879 Patrick Manson descobriu que a filariase, infecção parasitária como a da malária, difundia-se por meio da picada do mosquito. Meses depois Laveran examinando ao microscópio o sangue dum malariento descobriu o que procurava: os terríveis germes que invadiam os glóbulos vermelhos do sangue.
Em 1883 King denuncia o mosquito como o transmissor da malária e imediatamente dúzias de estudiosos ingleses, italianos e franceses começam a agir de acordo com a nova ideia. Antonio Grassi estuda o caso das aldeias italianas infestadas de mosquitos e Ronald Ross faz o mesmo na Índia.
Ao cabo de onze anos a obra de Ross estava completa. Eles e outros haviam provado da maneira mais absoluta que a malária tem como causa um germe, um estranho micróbio que passa um pedaço de sua vida no mosquito e outro no organismo humano, as anófeles. E mostrou que a quinina é efetiva porque destrói o micróbio da malária no sangue humano.
Por esta informação, obtida com sacrifício de sua própria saúde, Ross obteve o premio Nobel em 1902.
Os novos fatos coligidos tornaram viável o ataque á malária de outra maneira, a preventiva. Engenheiros e o exercito da saúde pública passaram a combater o mosquito e as águas estagnadas onde eles se proliferam. A luta fez-se com enxadão e pá, com dinamite e petróleo. Milhões de focos foram destruídos. Aqueles requeimados homens da luta ao ar livre formaram uma sagrada aliança com os pálidos investigadores de laboratório.
Enquanto tais combates se travavam nesses setores, os químicos insistiam em penetrar nos segredos da quinina. Em 1879, quando Mason descobriu a filariase, Skraup, na Alemanha, encontrou uma das unidades da molécula da quinina peça importante que recebeu o nome de quinolina. Ao tempo em que Rios encerrava os seus notáveis estudos na Índia Koenigs descobria na Alemanha outra unidade da quinina, á qual deu o nome de meroquina. Em 1907, sete anos depois da concessão do premio Nobel a Ross, dois alemães, Rabe e Hoerlein, descobriram que a molécula de quinina era composta de uma unidade de quinolina e uma de meroquina, entre ligadas por uma simples unidade de álcool.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943. 

sábado, 5 de março de 2016

A epopeia de roubar as mudas do Peru.

Era o momento de fugir depressa.
Markham, entretanto, não o quis fazer sem dar uma resposta ao alcaide. “Segundo me parece”, escreveu ele, “diante da Constituição do Peru, de 1856, vossas funções são apenas consultivas e legislativas, e não executivas... Aproveito desta oportunidade para expressas4 a minha apreciação pelo vosso patriótico zelo... Mas lamento que esse zelo seja acompanhado de tão lamentável ignorância dos verdadeiros interesses do vosso país”.
Markham entregou esta nota a um mensageiro e ordenou que a levasse ao alcaide. Depois voloru-se para Weir:
-Logo que o alcaide ler esta nota, teremos á nossa cola todo o exercito peruviano, mas isso não será senão daqui umas horas. Toca fugir...

A preciosa bagagem foi ajeitada no lombo dos muares; por cima foram colocadas as tenras mudinhas, e a descida começou; mas a algumas milhas adiante viram-se bloqueados por um grupo de homens. Markham da pistola e tais fez o grupo bater em retirada.
- Ora graças! Exclamou ele. Eu não poderia dar um só tiro porque a pólvora está molhasa...
Mais adiante uma das mulas escorregou e caiu numa perambeira. Markham desceu para salva as mudinhas; enquanto Weir, nada amigo de perder tempo, aproveitou a espera para colher mais plantas.
No primeiro povoado tiveram a impressão de que o Peru inteiro estava na sua cola. Os moradores da biboca já não se mostravam amistosos. A aquisição de provisões ia se dificultando; e animais de carga só lhes prometiam com a condição de voltarem por onde tinham vindo, isto é, Puno. E foram avisados de que outra diligencia os estava esperando nessa cidade sob o comando do próprio Coronel Martel.
Isso vinha alterar-lhe todos os planos. Foi resolvido então que Weir seguisse com as mulas que tinham, enquanto Markham, acreditando na velha pistola, furtou mais três, no lombo das quais levou o grosso das plantas.
Acompanhado de alguns nativos, corajosamente fez-se Weir de rumo a Puno, ao encontro do ameaçador coronel.
Se Weir fosse colocado na alternativa de perder as mudas para salvar os pés, muito bem, deixaria que Martel destruísse as mudas e salvaria os pés.
Markham, entretanto, ia defrontar um problema mais serio. Com três mulas  e um guia que, como depois verificou, nunca havia saído de sua aldeia natal, partiu ele para Arequipa por um diferente caminho. Com o auxilio da bussola e de mapas muito grosseiros tencionava romper em linha reta através dos andes.
Nada mais absurdo e perigoso, impossível e louco; mas apesar disso, dez dias depois de ter-se separado de Weir, Markham chegava a Arequipa. E dois dias depois apareceu Weir, firme nos dois pés, mas sem mudas, e os dois la seguiram para o porto de Islay em busca do consulado inglês.
A primeira variante da expedição de Markham fora bem sucedida. As plantas foram para bordo dum navio destinado ao Panamá, onde Haveria transbordo para Londres. A segunda variante também falhou. Meses depois da chegada de Markham aparecia Pritchett, vindo lá do vale Caravaya com uma coleção de mudas das florestas do Huanaco.
No Equador Spruce reuniu milhares de sementes da chinchona vermelha e as expediu com segurança para Londres. Também apanhou um severo reumatismo e uma doença nervosa, dando lhe veio a paralisia intermitente que nunca mais o abandonou.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943. 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Roubando mudas e sementes de chinchona no Peru

Um rapazola na casa dos vinte anos ousava sugerir não apenas uma expedição, mas quatro expedições simultâneas, todas dirigidas por ele, em quatro diferentes zonas. O pedido de sançõ oficial parta aquilo, e de fundos, era a que havia de mais absurdo!
Mas a audácia do relatório tinha o apoio de eminentes cientistas e manufatureiros, e os argumentos do relatório tiveram a força para convencer os peritos do governo de que a cultura da chinchona nas Índias era coisa perfeitamente viável.

Em tempo extraordinariamente curto a expedição foi aprovada. Markham recebeu autorização para coleta de sementes e mudas de chinchonas e superintender lhes o transporte e a introdução na ìndia e na ilha do ceilão.
Markham revelara-se um excelente planejador, e iria relevar-se ainda melhor executor. Habilmente escolheu os colaboradores necessários, botânicos uns, experientes sertanistas outros, todos animados da suprema decisão do “de fazer ou morrer pela Inglaterra”, espirito que levou alguns deles para bem perto da segunda alternativa do dilema.
Prichett, um sertanista, tinha a missão de coletar a casca da chinchona parda nas florestas de Huanaco, no Peru central ao norte de Lima; Spruce um notável botânico, procuraria a chinchona vermelha no Equador; Cross, um diligente escocês, ajudaria Spruce e depois cuidaria das cascas dos Andes colombianos. E o jovem jardineiro Weir acompanharia Markham na busca às cascas amarelas do sul do Peru.
Esses homens tinha de movimentar-se isoladamente ao longo do fronte de 2000 milhas, simultâneos, em silêncio e rápidos se possível. Dados os perigos e obstáculos, um ou dois haveriam de falhar, mas era provável que um vencesse.
Seguido de sua esposa e do fiel Weir, Markham desembarcou em Islay, pequeno porto da costa do Peru. No consulado inglês deixaramas suas tralhas e transportadores, estufas em miniaturas já com a terra pronta, destinada á condução de mudas. Após dois dias de viagem pelas areias do deserto, alcançaram a cidade de Arequipa. Ali foi deixada Minna Markham em companhia de velhos amigos de seu esposo, e os dois homens começaram a galgar as montanhas.
Subida forte. Estreita trilha de mulas ziguezagueava pelos Andes acima, sempre sobre nevadas ou chuva até uma altitude aproximada de quase 16.000 pés. Depois vinha a descida íngreme para uma garganta gelada, por entre brejos e penedos, até á cidade de Puno, á margem do lago Titicaca. Estavam lá a duas milhas acima do nível do mar e ainda havia outro tanto a subir!
Dispondo apenas das surradas mulas de aluguel ali da zona, Markham e Weir deixaram Puno pela estrada inca que conduzia a Cuzco, a velha capital do império aborígene: depois rumaram para leste e puseram-se de novo a subir.
Encontraram mais povoados a milhares de pés acima do nível do mar, e mais desfiladeiros, cada vez mais altos. E mais tempestades de neve, e mais lama, e mais atalhos escorregadios.
Num dos pousos naquelas alturas encontraram Don Manuel Martel coronel do exército peruano, o qual se mostrou insinuante e começou a falar sobre coisas relativas á chinchona, revelenado muito conhecimento de causa.
- Snhores nunca ouviram falar de José Carlos Mueller?
Os dois ingleses sacudiram a cabeça.
- Pois foi um mal homem, continuou Muriel. Seu verdadeiro nome era Hassskarl. Foi mandado para aqui pelos holandeses, e furtou ao nosso povo a planta que o sustenta
Nunca ouviram falar do Sr Hasskarl?
Markaham fez imperceptível sinal a Weir e respondeu que não.
Martel admirou-se
- Não o conhece? Está certo disso? Não importa; mas se acaso o encontrarmos por aqui, ou a algum seu assistente, cortamos lhe os pés! Os senhores não estão interessados na chichona não é mesmo?
Claro que não estavam, e no outro dia Martel partiu para Puno enquanto os dois ingleses prosseguiam rumo ao belo vale de Caravaya, onde começam as florestas de chinchona.
Um mês levaram para alcançar o distrito da quina amarela e gastaram outros dois para juntas as sementes. Mas aquela atividade não poderia se manter por muito tempo secreta assim tiveram de apressar o retorno. O suspeitoso Martel andava espalhando coisas por aquelas paragens, além disso estavam em zona fronteiriça da Bolívia, com os dois povos prestes a se atracarem.
Cada dia, aquela mesma luta contra a floresta, a rfomperem caminho no denso emaranhado de mudas da árvore e palmas exóticas, a esbarrarem em orquídeas raras, a vadearem riachos, a amassarem lameiros. A noite, sempre prontos para fugir para a cota ao anuncio dum perigo, arrumavam as mudas em pacotes enrolados em couro da Russia.
No entanto o prefeito de uma cidade próxima expediu ordem de prisão contra dois estrangeiros e de confisco das suas bagagens.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943. 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A história secreta da quina

Os holandeses, apesar das recentes restrições contra o transplante de quina para outras terras. Mandaram ao Peru um botânico de valor, Justus Hasskarl, cuja atuação foi agitada. Teve de atravessar os Andes sob incógnito; subornou funcionários; e organizou encontros secretos na fronteira da Bolívia, onde os sacos de sementes juntadas pelos índios eram trocados por ouro.
Após dois anos de trabalheira conseguiu Hasskarl chegar ás Índias Holandesa com centenas de mudas e sementes. As mudas não resistiram a demorada travessia, só as sementes se salvaram.
Jardim Botânico de Londres
O governo holandês mostrou-se grato ao valente explorador e o deixou coordenando as plantações de quina em Java. Também o condecorou.
Mas ocorreu um engano trágico, ou era ainda o feitiço? As sementens produziram lindas plantinhas, com as quais se formaram vastos quintais, mas Hasskarl havia trazido às sementes erradas. A casca daquela chinchona não revelou a presença do alcaloide....
Os governos sul americanos souberam dessas tentativas para lhes roubar um monopólio natural e disseram: “Deus nos deu grandes florestas de chinchona e não podemos permitir que nos roubem o monopólio. Havemos de defende-lo.
Foram decretadas rigorosas leis reguladoras da exportação da casca perviana, não só no Peru como na Bolívia, no Equador e na Colombia, onde também existia a preciosa árvore.
Cascas podiam sair desses países, mas não sementes ou mudas, nada que pudesse criar a cultura da chinchona fora daquelas zonas. Enquanto isso, milhões de maláricos pelo mundo inteiro imploravam quina e viam o seu preço subir sempre.
Numa repartição publica da Inglaterra estava um jovem funcionário inglês lendo correspondência oficial sobre a Chinchona. Chamava-se Clements Markham, 24 anos, filho dum sacerdote, mas desinclinado a seguir a carreira do pai.
Por quatro anos já tinha servido na marinha britânica, e visitara a América do Sul, o México, a California, as Ilhas Sandwick; também tomara parte na mal sucedida procura de Sir John Franklin, que desaparecera numa caçada lá pela Northwest Passage. Em sua estada no Para estudara a história dos antigos incas.
Mais tarde passou seis horríveis semanas numa repartição do governo a copiar carunchosos testamentos. Um mês antes de fazer 24 anos foi tirado de tão desalentadora tarefa e removido para outro setor, onde lhe incumbia lidar com os negócios entre o governo inglês e a Companhia das Índias.
Foi quando desenterrou um velho relatório oficial com a historia secreta da chinchona
No Peru havia Markham visto florestas de chinchona, mas só agora apreendia o imenso valor. Soube pelo relatório que a malária afetava um terço da população do globo e contra ela só tinha poder a quinina. Soube também que a malária fazia um milhão de vitimas por ano.
O relatório igualmente informava que na Índia e na Ilha de Ceilão as regiões montanhosas eram do mesmo clima da zona quinifera dos Andes, e mencionava as leis restritivas em vigor nas republicas sul americanas.
Durante cinco anos Markham estudou a chinchona e a América do Sul. Conversou a respeito com Sir William Hooker, diretor do jardim botânico de Kew, e com John Eliot Howard, o maior manufaturador de quinina da Inglaterra. Consultou botânicos e químicos e funcionários das Índias Office, informou-se de tudo quanto sabia sobre a chinchona, o Peru ou a Índia. E por fim, em 1859, apresentou um plano ao Revenue Comitter, do Índia Office.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943. 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Feitiços da quina impedem o cultivo

Em meados do século XVIII o peso do monopólio da chinchona estava já se tornado tão insuportável que alguns homens previdentes conceberam planos para destruí-lo, e a vitória não foi fácil.
Em 1735 chegavam a Quito, capital do equador, quatro franceses enviados pela Academia de Ciências para medir um grau do meridiano no equador, com fins de determinação da circunferência da terra. Antes de iniciados os trabalhos, um dos componentes do grupo, o geografo La Condamine, ressentiu-se e abandonou os companheiros.

La Condamine desceu os Andes rumo sul e foi ter as luxuriantes florestas de Loxa, donde saíram as primeiras cascas de quina quina enviadas a Europa. Lá tratou com um espanhol negociante de cascas e informou-se dos aspectos financeiros daquela indústria extrativa.
- Mon Die!!! Então esta casca que o senhor exporta fica assim tão barata? Vale assim tão pouco aqui no Peru? Custa-me crer no que ouço, porque na França um pedaço de casca vale centenas de francos.
- Está claro que é barata aqui, pois basta que a destaquemos das árvores. O custo desse trabalho é mínimo.
La Condamine ficou a remoer aquilo. “Por que não tentar a aclimatação da chinchona na Europa?”
Ajudado pelo espanhol, La Condamine escolheu cuidadosamente algumas dúzias de mudas, plantou-as em caixas e preparou-se para o regresso a França. Sua viagem rumo ao rio Amazonas foi de arrepiar os cabelos. Durante semanas ele e seus companheiros nativos arrostaram pântanos e espessas florestas, corredeiras e cataratas, indígenas hostis e animais perigosos; venceram milhares de milhas por água e por fim alcançaram a foz do Amazonas. E lá, então bem a vista do barco que iria levar para a França o seu precioso carregamento de mudas, a canoa em que vinha o naturalista virou ao impacto de uma onda... Por feliz devia dar-se ele de não parecer afogado, mas naquele momento La Condamine só pensou no tesouro perdido. “Minhas pobres plantas! Com tanta luta trouxemos por 1200 léguas, numa peregrinação de oito meses, para no último momento ve-las sumirem deste modo”.
Lá no Equador os outros cientistas rompidos com La Condamine terminaram a missão que os levara. Antes do regresso deles, Joseph de Jussieu tomou a deliberação de espiar o Peru.
Ao cruzar a fronteira peruviana deu com os nativos em luta contra mortal epidemia e, como fosse médico, Jussieu ofereceu-lhes os seus serviços. Finda a luta, prosseguiu na jornada, visitou umas tantas cidades, colecionou umas tantas flores, e por lá se deixou ficar por trinta anos.
- Que admirável terra dizia ele. Tantas plantas novas, tantas árvores notáveis, tamanha riqueza em insetos! Como voltar a Paris?
Ano após ano foi Jussieu acrescentando a sua coleção, e para isso mergulhava fundo nas florestas virgens, galgava os mais altos píncaros, varejava pantanais. A sua coleta assumia proporções desmarcadas, e pari-passo ele ia conduzindo um grande trabalho de estudos científicos. Nas comunicações de lá feitas a Academia Francesa  falava em voltar e dizia da sua ânsia de tornar conhecidos na Europa os mais fascinantes espécimes da flora sul americana.
Finalmente, depois de devotar metade da vida a esse estudo, deu-o Jussieu por findo. Conquistara o direito de morrer em paz em sua terra – e ao tratar do retorno não se esqueceu da chinchona.
La Condamine pensara em levar mudas; Jussieu pensou em sementes. Escolheu-as muito bem – milhares, e acondicionou-as em caixa bem fechadas. E manteve aquilo sempre a vista, como se se tratasse dum incomparável tesouro de diamantes e rubis. Esse cuidado excessivo foi sua desgraça.
Em Buenos Aires, onde ficou a espera do navio, um criado estranhou aquela extrema vigilância e, convencido de que realmente se tratava de um tesouro, roubou certa noite a preciosa caixa. Vendo que nada continha se não sementes deito-a fora, num acesso de raiva.
Ao descobrir a grande perda, Jussieu caiu em profunda tristeza. Lá se fora o que ele apreçava acima de tudo! Deu queixa as autoridades, mas ninguém conseguiu por unhas no ladrão.
Melancolicamente embarcou para a terra natal o pobre francês. Seus colegas em França, entusiasmados com as comunicações recebidas, as quais já tinham valido a entrada para a Academia, foram espera-lo no cais. Jussieu não os reconheceu. Havia enlouquecido.
A superstição indígena atribuía a quina um feitiço malévolo. Superstição ou não o fato é que ainda não foi desta vez que a quina, árvore, chegou a Europa.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943.