quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Os micróbios e a redescoberta do fenol

Lister repetiu quixotescamente as experiências de Pasteur, verificando pessoalmente que onde não havia bactéria não havia putrefação.
E Lister tornou-se então um matador de micróbios. Convenceu-se de que a podridão dos hospitais, as gangrenas horríveis e os envenenamentos do sangue eram causados por micróbios – micróbios que entram no corpo quando a pele é cortada.
Devia haver um meio de manter à distância estes micróbios ou mesmo mata-los. Lister aos artigos de Pasteur, mas o sábio francês estava apenas interessado na fermentação dos vinhos e outros. Pasteur matava os micróbios por meio da fervura – mas como ferver um paciente?
Analisando o esgoto de uma estação de tratamento de esgoto.
Lister consultou de novo o mestre da química.
- Meu caro Anderson, estou em procura de qualquer coisa que mate micróbios – algo que não seja fogo. Preciso dum agente químico, uma substancia benigna para o nosso corpo, mas letal para os micróbios. Que é que sugere?
- Há, respondeu Anderson, um certo numero de velhas drogas desse tipo, antissépticos que suspendem a putrefação.
Há o álcool e a glicerina; há o benjoim e alguns óleos vegetais.
São historicamente antigos, mas pouco efetivos. Realmente eu não posso...Espere! E o fenol?
Lister fez cara de ignorância.
- Que é fenol
- Oh, o mesmo que acido carbólico – produto extraído de alcatrão e você conhece os efeitos do alcatrão.
- Engana-se. Não conheço.
- Sim, não é químico... Pois o alcatrão ou pixé tem usado a séculos. Os egípcios muito provavelmente o usavam na preservação de múmias. Nós o usamos para preservar a madeira, e sobre tudo os dormentes. O pixé interrompe o apodrecimento. É provável que também mate os seus micróbios.
- Talvez, murmurou Lister. Talvez...Obrigado, Anderson. Hei de pensar nisso. E se eu precisar desse fenol ou acido carbólico?
- Há um tal Freddy Calvert, em Manchester, que eu conheço. Anda a extrair fenol em pequena escala.
Lister parafuso naquilo. A calamidade dos hospitais não lhe saia da cabeça. Era um homem bem dotado de sentimentos, mas prudente e que a nada se arriscaria sem ter adquirido certeza. Além do mais, ninguém ainda havia demonstrado que os micróbios realmente fossem causadores de doenças.
Semanas mais tarde sua esposa lhe chamou a atenção para um pequeno artigo de jornal.
- Joseph, disse ela, eis aqui qualquer coisa sobre o acido carbólico de que você falou. O Dr. Crookes usa-o nos esgotos de Carlisle.
- Sim? E que mais diz?
- Diz também que o acido carbólico acaba com o mau cheiro da putrefação nos esgotos. Como pode ser assim, Joseph?...
- Indubitavelmente mata os micróbios responsáveis pela putrefação.
- Matar os micróbios, Joseph? Serão os micróbios uma coisa tão má que até produzem mau cheiro?
- Minha cara, respondeu Lister, eles talvez ainda sejam piores. Suspeito que são causadores das doenças humanas. Eles...Mas qual é o nome do homem que Anderson referiu? Calvet,  perece. Vou escrever-lhe uma carta logo de manhã. Hum... Com que então o acido carbólico acaba coma putrefação nos esgotos...
Quando uma certa quantidade de acido carbólico chegou de Manchester, o cirurgião de Glasgow impressionou-se mal. Era um líquido escuro, de cheiro desagradável, muito longe de inspirar confiança na sua ação germicida. Lister ainda ignorava que os jornais científicos, por ele lidos por falta de tempo, davam o acido carbólico como um dos mais poderosos matadores de germes. Ignorava que os químicos alemães haviam provado que o fenol interrompia a putrefação em poucos segundos. Ignorava que os farmacêuticos franceses e uns tantos médicos estavam procurando curar feridas com pós ou líquidos com base de fenol. E também não sabia que mesmo na Inglaterra aquele produto já fora usado como antisséptico durante a peste bovina.
Lister não sabia nada disso, apesar de serem coisas de grande significação. A medicina precisava que alguém redescobrisse o fenol e fizesse alguma coisa dele.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943.

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