sábado, 31 de dezembro de 2016

Buscando as causas do beribéri na Ilha de Java.

Os médicos militares holandeses conheciam o beribéri – e quem não conhecia? Tratava-se de doença velha conhecida da grecia e de Roma. Doença que havia paralisado e deteriorado músculos no Egito, transformado homens em esqueletos no Japão, destruído criaturas na China, produzido milhares de náufragos nas longas lutas bélicas da Europa. Matava sem respeitar classe social. Este mesmo beribéri reaparecia como flagelo dos holandeses na zona malaia.
Vulcões da Ilha de Java
Hospitais brotavam em Java, nas Celebes e outras pitorescas ilhas e em 15 dias lotavam de pacientes com beribéri. Pior que não se tratava de uma coisa epidêmica, dessas que se agrava de súbito depois se acalmam; era coisa constante, perpetua, e os nativos riam-se ao ver os holandeses tombarem por invisíveis balas.
Depois de dez anos desta hecatombe, os holandeses de Java pediram socorro aos seus compatriotas em Utrecht e Amsterdam.
-Procurei um remédio para esta doença, ou estaremos fritos.
- Doença? Murmuraram na Europa os consultados. Deve andar ai um micróbio. Mandaremos para lá os nossos melhores caçadores dos invisíveis – e pensaram em Cornelis Pekelharing, professor em Utrecht; esse homem estudava proteínas na escola veterinária oficial em Utrecht.descobrira o bichinho que em sua opinião provocava a calvice. Também escolheram o professor Winkler, autor duma tese sobre o bacilo da tuberculose ( que não conseguira encontrar) e também mestre em doenças nervosas.
E lá foram para Berlim os dois sábios a fim de aconselhar-se com Robert Koch o recente descobridor do tão procurado micróbio.
- Eu gostaria de ir com vocês, disse Koch, um velho apreciador de países distantes, mas não posso deixar Berlim. Apenas posso indicar um estudante que tenho aqui, compatriota de vocês – o Dr. Christian Eijkman.
O indicado era um moço de 28 anos e já conhecedor do beribéri, dois anos antes servira como cirurgião militar na pequena cidade javanesa de Tjilatjap, onde travara conhecimento pessoal com os estragos feitos por essa doença.
Assim, os três cientistas, mais os necessários auxiliares partiram da Holanda em outubro de 1886. Em novembro chegavam a Batavia, onde se puseram a obra num pequeno laboratório do hospital militar de Wltevredem. Três meses passaram ali; em seguida, mais três meses no campo; e mais três meses de novo no laboratório. Exatamente nove meses depois estava de volta Holanda.
Haviam descoberto o “micróbio produtor do beribéri”.
Porque era preciso que fosse um micróbio. Beribéri, doença misteriosa? Oh, a causa de todas as doenças misteriosas estava sempre num micróbio. Mas tudo quanto eles haviam encontrado não passava de um pequenino germe, presente apenas em 15 de cada 80 beribéricos, o qual germe, injetado num cachorro, adoecia o animal e às vezes escangalhava os nervos.
E como haviam concluído que aquele bichinho “era talvez a causa do beribéri”, antes de regresso a Holanda aconselharam aos médicos javaneses o uso abundante do sublimado corrosivo e outros poderosos germicidas na desinfecção das roupas, assoalhos, mobília, teto e mais superfícies expostas ao ar. Mas aqueles sábios haviam tido uma brilhante inspiração: sentindo que o assunto não estava plenamente decidido, induziram as autoridades a manter em Java um serviço permanente de estudos a cargo de Eijkman. Até aquele momento o cientista olhava para a doença como algo tedioso. Enquanto chefes dramaticamente perseguiam os micróbios, ele se deixava ficar no laboratório quente como uma estufa. Enquanto os outros romanticamente lutavam contra a morte nos hospitais, ficava Eijkman ali a contar glóbulos vermelhos do sangue. Enquanto davam combate a uma praga, ele media a hemoglobina.
Mas agora tudo mudara. Sozinho e dono de si mesmo, ele pretendia descobrir o micróbio verdadeiro – porque estava certo de que era um micróbio, e isso o levaria a gloria.
Aos trinta anos tornou-se o chefe, o diretor supremo e praticamente o único cérebro do suarento Laboratório Bacteriológico, Patológico e Anatômico das Índias Holandesas, onde durante dois anos se esforçou por arrancar alguma coisa da muda massa de dados coletados.
- Deve haver um micróbio – mas onde está?
Os exames microscópicos se sucediam, mas nada de micróbios, nada de bactérias – nem mesmo um simples cocus. Eijkman injetava em animais escarro e sangue e até fragmentos de tecidos mortos, mas os pobres ratos morriam sem revelar nenhum sintoma de beribéri.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Oscar Liebreich o divulgador da porção do sono

Em 1868, Oscar Liebreich, estava a quatro anos depois de doutorar-se m medicina. Trabalhava em Berlim e procurando aplicar produto químico na cura de doenças. Seu interesse maior estava no tratamento da insônia.
Naquele tempo havia meia dúzia de porções dormitivas de efeito real, das quais três sem perigo; mas não havia nenhuma que fosse ao mesmo tempo efetiva e sem perigo. Os brometos eram muito fracos, e a morfina, o éter, o clorofórmio, a marihuana, o hashish e os outros eram muito perigosos para o uso seguido, sem a constante vigilância do medico.
- O melhor, admitia Liebreich para si mesmo, ainda é malhar na cabeça com u martelo.
Mas devia haver algo melhor que o martelo. Devia haveralguma droga fácil de tomar, algo que cantasse á vitima da insônia uma cantiga de adormecer criança e fosse fácil de tomar e sem perigo. Devia haver, porque não há o que não haja – e, afim de por-se na pisada do calmante, o medico Liebreich voltou a ser o químico Liebreich.
Existia possibilidade numa indicação de Justus von Liebig; misturar álcool e cloro para fazer cloral; tratar o cloral com álcali para fazer clorofórmio. “Espere”, pensou Liebreich. “Cloral mais álcali dá clorofórmio e o clorofórmio faz dormir. E que acontecerá se pusermos algum cloral na corante do sangue para que o álcali do sangue se arrume com ele? Está aqui uma ideia”.
Oscar Liebreich resolveu transformar os vasos sanguíneos em tubos de laboratório. Havia álcali no sangue, sim, mas muito pouco; mesmo assim devia produzir misturado com o cloral, o clorofórmio necessário para adormecer o paciente. A coisa devia dar-se exatamente como no laboratório, apenas com maior morosidade. A formação do clorofórmio sendo assim lenta, de horas, dela viria horas de sono para o insone!
Se Liebreich tivesse no laboratório misturado um pouco de cloral com sangue para ver se dava clorofórmio, teria logo abandonado a ideia como inviável. Essa reação não existe – mas o nosso homem ignorava-o
Em vez de fazer o que era logico e sensato em vez dum teste no laboratório começou logo pelo fim – a experimentar em rãs. Injetava-as com cloral e elas imediatamente adormeciam.
- Admirável! Exatamente como pensei. O cloral vira em clorofórmio lá dentro e as adormece.
Depois que as râs acordaram e se puseram ade novo a saltar, perfeitamente normais. Liebreich abandonou-as e passou aos coelhos. Os resultados foram os mesmos!
Liebreich rodou para as enfermarias dos Hospitais de caridade, depois de obter licença para experimentar lá a sua poção. Primeiro em dementes, sem dúvida, porque se morressem não seria grave a perda.
Numa das camas jazia Herr Stoekel, vitima de epilepsia e melancolia ansiosa. Com medo de que sua cama pegasse fogo, passava acordado dia e noite. Liebreich injetou-lhe no braço vinte gotas de cloral diluídas em água. Três minutos depois o doente começou a bocejar e piscar de sono. “Eu não quero dormir”, dizia ele em sua loucura. “Saiam daqui, por favor, eu não quero dormir...”
Ao cabo de dez minutos seus olhos se fecharam. Ele ainda tentou abri-los. Não pode mais. Caíra em sono tão profundo que nem picadas de alfinetes o acordaram. Dormiu três horas, fez o lanche e caiu de novo no sono.
Três vezes o pobre epilético foi injetado de cloral e nas três vezes afundou no sono que tanto temia e que tanto precisava. Em seguida Liebreich deu uma injeção de cloral numa mulher de meia idade cujo cérebro estava sendo atacado de paralisia, e outra numa linda moça perseguida de horrendas visões.
Ambas dormiram e despertaram aliviadas. Os médicos, então, com o maior entusiasmo, fizeram a experiência do clorofórmio em outros enfermos que igualmente não podiam dormir, ou por causa de uma dor, ou por caua de preocupações – e todos dormiram noites e noites seguidas e assim puderam restabelecer-se.
Mesmo quando outros médicos alemães provaram que já de oito anos vinham usando aquela droga, ele não se incomodou. Fosse como fosse, a Oscar Liebreich devia o mundo a maravilhosa poção que faz dormir.
Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943



domingo, 18 de dezembro de 2016

Explodindo laboratórios Liebig descobriu o clorofórmio

A primeira explosão provocada por Justus von Liebig foi relativamente insignificante. Nem chegou a ser propriamente uma explosão, sim um leve acidente que derramou uma vasilha de tinta no atelier de seu pai, em Darmstad, na Alemanha.
- Justus, repreendeu o velho von Liebig, já disse que não mexesse nas tintas. Por que não fica lá em casa, a estudar nos livros ou a fazer qualquer coisa?
- Papai, respondeu o menino tirando uma pasta de tinta que lhe espirrara nos cabelos, eu não gosto de estudar nos livros , meu prazer é trabalhar aqui. Quero misturar tintas e ajuda-lo.
Justus Von Liebig
Mas o velho pareceu que aquele seu negocio caminharia muito melhor sem a ajuda do filho, de modo que o forçou a cursar o ginásio; queria que ele aprendesse matemática e se tornasse um verdadeiro homem de negócios.
A segunda explosão foi coisa mais forte. Ocorreu por uma tarde do ano 1819 e deu com Julius fora da escola.
- Não sei o que fazer com você, declarou o reitor. Veja o que me fez com essas porcarias de drogas! A paredeestá toda borrada e as janelas sem vidros. Há meses que você vem sendo a peste da escola. Que desgosto não deve dar aos seus pais um menino assim! Que vai ficar quando vier o bigode? Que pretende ser?
- Quimico. Vou ser químico, respondeu Justus.
E o menino foi devolvido a casa paterna. Onde aliás não demorou ,muito tempo; seu pai tinha outras ideias.
- Quimico? Absurdo, rapaz! Vai ser mas é farmacêutico. Vou manda-lo para Heppenheim, como aprendiz.
A terceira explosão veio dez meses depois – e dessa vez foi coisa séria. Arrebentou o teto do sótão da botica, espatifou as vidraças, arrancou dos batentes as portas e jogou com o aprendiz no olho da rua. Novamente pai e filho se defrontaram.
- Justus, disse o velho, que hei de fazer de você Por que não se comporta e não dá um bom aprendiz?
- Mas, papai, eu não quero ser boticário. Quero ser químico.
E foi assim, graças a sua teimosia, que em 1820 Justus Liebig entrou  para a Universidade de Bonn afim de estudar ciências – e as explosões cessaram. A estadia em Bonn mostrou-lhe a impossibilidade de aprender química na Alemanha. “Em 1820”, escrever mais tarde, “o melhor laboratório da Alemanha não valia uma simples cozinha” – e isso o fez tomar o caminho de Paris, atraído por Gay-Lussac, o grande mestre francês.
E foi lá em Paris que certa vez um homem verdadeiramente gigantesco se aproximou dele e começou a fazer perguntas?
- Em que está trabalhando?
- No fulminato de prata.
- E que já descobriu?
Justus contou o que havia feito, polidamente, mas com entusiasmo. O enorme estrangeiro impressionou-se.
- Interessante, sim. Ai há coisa. Não quer jantar comigo domingo? Poderemos conversar mais.
O domingo chegou. Justus vestiu sua melhor roupa, mas no meio da excitação da novidade foi colhido por uma ideia terrível. Que homem era aquele? Qual o seu nome? Onde morava Justus esquecera-se de perguntar-lhe tudo isso...
No dia seguinte, segunda-feira, logo que entrou no laboratório, um dos estudantes aproximou-se.
- Von Liebig, onde se meteu ontem? Por que não foi ao jantar? Todos o esperamos por muito tempo.
- Sabe o que aconteceu? Esqueci perguntar o nome e o endereço do homem.
- esqueceu? Esqueceu?... Não percebeu logo de cara que estava sendo convidado pelo Barão de Humboldt, o maior sábio do mundo?
Liebig tirou o avental rapidamente e voou para a casa do maior sábio do mundo, ao qual deu atrapalhadamente as desculpas que pode. O grande hoeme riu-se a valer, recostado na poltrona. Depois, enxugando as lagrimas do rosto enrugado, perdoou ao jovem químico e fez-lhe outro convite par o domingo próximo.
Quando chegou o tempo de Liebig deixar Paris, Von Humboldt deu-lhe uma preciosa carta de recomendação com que o jovem químico obteve o lugar de professor na velha universidade de Giessen.
Em 1831, uma das experiências de Liebig abriu um campo novo para a medicina; sem que a medicina o percebesse o químico misturou cloro e álcool e obteve uma coisa nova – O cloral. Depois tratando o cloral com um álcali forte, obteve outro líquido a que deu o nome de clorofórmio

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Ácido Acetil-salicílico o ácido aprovado pelos peixinhos

Em 1899 os químicos alemães não deram um só pensamento ao ácido acetilsalicílico descoberto em 1853. Ficou sendo mais um na lista de produtos químicos inúteis; não era nem sequer composto misterioso. Todos os químicos ignoraram-no, exceto um hábil químico da Bayer, Feliz Hoffmann, o qual para isso teve duas razões. Primeiro, a ordem recebida dos diretores da Bayer, de encontrar para o acido salicílico um substituto melhor que todos os existentes no mercado.
Segundo seu próprio pai:

- Felix, dizia o velho Hoffmann cada noite, meu reumatismo continua me incomodando.
- Já tomou as suas pílulas, papai?
-Pílulas!  Não me fale em pílulas. Fazem-me ainda mais doente, como se tivesse um formigueiro no estomago. Minha garganta queima. Essas pílulas me fazem vomitar. Não as quero mais. Entre elas e o reumatismo, prefiro o reumatismo.
- Deve toma-la esta noite, papai. Fazem bem, sim. São de acido salicílico.
-Ach! Lá vem com o tal salicílico! Felix, eu mandei você estudar para que ficasse sábio. Por que não me ajuda agora? Naquele laboratório que tem tanta coisa, por que não descobre algo que seja bom para mim?
- Sim, papai, tornou Felix pensativamente, acho que o senhor precisa...
Cada noite repetia-se com variantes aquele mesmo dialogo, e cada dia, lá no “laboratório que tinha tanta coisa”, Felix trabalhava pacientemente em busca dum novo febrífugo.
E isso até que a tenacidade germânica de Felix Hoffmann desse com o acido acetilsalicílico.
Certo dia Felix levou ao laboratório farmacológico do Dr. Heinrich Dreser, chefe do departamento de pesquisa de drogas da Bayer e o introdutor da heroína no mundo, um pacote de cristais brancos e amargos.
- Dr Dreser, disse Hoffmann, tenho aqui um pouco de acido acetilsalicílico puro. Nada mais posso fazer com ele em meu departamento. É preciso agora experimentar em animais.
- Acido acetilsalicílico? Repetiu Dreser, apalpando o pó. Acha que pode substituir o ácido salicílico?
- É o que os senhores médicos tem de decidir. A parte do químico está terminada.
- Obrigado. Em duas ou três semanas tirarei tudo a limpo.
O trabalho de Dreser tomou mais tempo do que o previsto, mas ao terminar estava substancioso.
-Você criou de fato um surpreendente produto, Hoffmann. Fizemos muitas provas e...
=E?...
- Achamo-lo ótimo. Pode orgulhar-se do trabalho feito.
Hoffmann curvou-se polidamente.
- Obrigado, doutor, mas há um ponto sobre que desejo esclarecimento. Será produto muito irritante? O senhor compreende o meu interesse pessoal nisso.
- Sei. O caso de seu pai. Venha comigo ver uma coisa.
Hoffmann acompanhou-o a um pequeno aquário próximo e lá, depois de uns tantos palavrões e espirros pegou dois peixinhos, aos quais embrulhou em pano húmido, em seguida colocou-lhes na boca um tubo de borracha para permitir respiração artificial, e nas guelras um sifão.
- Que tal acha este arranjo/ perguntou com vaidade.
Olhe. Atente sobre tudo nas caudinhas. Veja como são claras e transparentes as membranas. Agora, mergulhemos a cauda dum dos peixinhos. Num vaso com solução de acido salicílico. E a cauda do peixinho B vai para outro vaso com solução de acetilsalicílico.
Admirado daquela bizarra experiência, Hoffmann prendia a respiração.
Dreser sorri.
-Não compreende? Olhe – veja este peixinho, o do acido salicílico. Veja que sua cauda está se tornando branca e opaca. Isto é sinal de irritação, e mostra o que o acido salicílico faz para os gotosos. Agora olhe este segundo peixinho. Continua com a cauda branca e transparente. O acido acetilsalicílico não muda em nada.
A luz iluminou o cérebro de Hoffmann.
- Fez então essa experiência para mostrar que o meu acido é inofensivo
- Exatamente.
-Viva gritou o químico. Isso é prodigioso. Mas não vai experimentá-lo em gente?
Dresser fez que sim.
- temos que experimentar Já mandei amostrar a Withauer do hospital de Halle e a Wohlgemuth em Berlim, e ambos informaram-me que as provas foram muito boas.
Só mais tarde, depois que milhões de pacientes usaram o novo remédio, é que os cientistas iriam notar-lhe os defeitos: dores de cabeça, náusea e vomito, surdez temporária, zoada nos ouvidos, aperto da garganta, inchações e outras. Ms no começo os dois homens consideraram-se plenamente vitoriosos.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943




sábado, 3 de dezembro de 2016

O lixo virou medicamento

Apenas seis meses depois do anuncio da antifebrina, outro febrífugo apareceu, dessa vez não por acaso, mas economicamente planejado.
A coisa começou certa manhã em que Carl Duisberg pôs- se a trabalhar num desagradável problema de acumulo de lixo. Num dos pátios de usina de Freiedrich Bayer, onde Duisberg era diretor de pesquisa, formara-se uma montanha de pó amarelo, ai dumas cinquenta toneladas.

- temos que fazer qualquer coisa disto, falou Duisberg ao seu assistente. Está nos tomando muito espaço aqui.
- Que é?
- Para-amimo-fenol cru – um desses subprodutos inúteis que viram problemas em todas as fábricas. Qual a sua ideia
O assistente fez um gesto de cabeça revelador de esperança.
- Lá na minha mesa tenho a formula deste subproduto- vamos vê-la. E lá: Aqui está ela. E aqui está a formula da antifebrina, daquele gajo de Strasburgo. Vê como são semelhantes.
 -Muito bem. Minha ideia é que se acetilarmos esta amina aqui e depois bloquearmos este fenol com um metílico ou algo do grupo etílico, podemos chegar a alguma coisa pratica.
Como mágicos a planejarem um novo meio de extrair uma lebre do fundo dum chapéu, os dois químicos calmamente traçaram no papel a transformação dum subproduto residual em uma poderosa droga antifebril.
Trabalho extremamente simples. As sugestões de Duisberg foram executadas em pequena escala e deram um produto que a primeira vista recebeu a classificação de etoxil-acetanilioda, nome que mostrava suas relações com a antifebrina de Cahn e Hepp – e aquilo foi mandado ao hospital de Freiburg para prova nos doentes.
Feitas as provas, aquele montão de resíduos se reduziu todo a fenacetina – um excelente e baratissimo febrífugo.
Quando chamaram a Carl Duisberg e o elogiaram pela ideia, aquele quimicozinho retaco e de reduzida estatura refugou os aplausos. “Não, disse ele, “o Caso foi muito simples. Não podíamos continuar com tamanha montanha no pátio e o remédio era removê-la ou transforma-la em algo que pudéssemos vender”...
Essa expressão “transforma-la em algo que pudéssemos vender” tornou-se a ideia mestra da filosofia industrial alemã.
A Alemanha havia dado ao mundo quatro grandes drogas antifebris: acido salicílico, antipirina, antifebrina e fernacetina. Breve daria mais duas, piramidon, ou aminopirina, que não passava a antipirina melhorada, e também o cinchofen para a gota.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sábado, 26 de novembro de 2016

O acaso da naftalina descobre a antifebrina

Em 1886, o mundo medico voltou os olhos para uma pequena clinica em Strasburgo, na Alsacia alemã, para informações sobre o aparelho digestivo e sua função. Guiados pelo Dr Adolf Kussmaul um grupo de jovens estudantes testava os efeitos de muitos elementos químicos na digestão. E operando com terrificantes bombas estomacais, eles aprenderam a inundar o estomago de seus pobres pacientes. Procuravam remédios para todas as doenças intestinais causadas por germens e parasitas.
Certo dia dois desses rapazes receberam uma ordem.

- Senhores, disse o professor Kussmaul, tenho um belo problema para ambos. Há aqui malvado vermes que penetra no intestino e fura as tripas. Talvez vocês encontrem uma droga que os mate, sem matar ou prejudicar o paciente.
Os incumbidos do problema foram Arnold Cahn e Paul Hepp, o primeiro já a especializar-se em ácidos do estomago e o segundo no ataque a triquinose. Nenhum dos dois gostou da tarefa que o mestre lhes atribuía.
- Vermes, vermes! Rosnou Cahn. Não gosto de trabalhar em vermes. Isso cabe a você, Paul, que é o perito em vermes aqui no nosso grupo.
- Sei, tornou Hepp. Você não quer, nem eu – mas o mestre mandou e temos de obedecer. O melhor é começarmos já, para acabarmos a coisa o mais depressa possível. Mas por onde começar?
- Hum... Podemos experimentar com a nossa naftalina, se é que ainda existe. Todos andam aqui a usa-la. E voltando-se para alguém: “Oh lá, Julius! Venha cá”.
Um lavador de vidros, de lerda, aproximou-se.
- Vá ao quarto das drogas e diga a Schmidtzie que precisamos dum pouco de naftalina, ai umas 50 gramas, se é que não comeram tudo.
Julius encaminhou-se sonolentamente para o deposito de drogas onde Herr Schmidt imperava, e deu o recado. Uma hora mais tarde Schmidt em pessoa vinha fazer a entrega da droga pedida.
- herr Doutor, disse ela a Cahn, não tenho  bastante naftalina no vidro grande, mas trago aqui um vidro ainda não aberto. Não sei bem se é naftalina, porque o rotulo está estragado. Parece que é.
Cahn espiou o que restava do rotulo e disse:
- Sim, é naftalina. Deixe o vidro conosco. Com certeza vamos usar tudo.
Uma semana depois os dois assistentes ainda estavam procurando matar vermes com aquela “naftalina”, e a droga não agia (eles nem haviam cheirado o vidro! A naftalina cheira como aquelas bolas de matar traças). Não matava vermes.
Por fim Paul Hepp agarrou o vidro, dizendo:
- espere um pouco. Vou ver se esta porcaria cura alguma coisa! Tenho um doente no consultório com a barriga cheia de tudo que os livros trazem. Vamos ver o que esta naftalina faz com a bicharia dele.
Tres horas mais tarde Hepp corria para a mesa de Cahn.
- Escute! Você sabia que a naftalina abate a febre?
- O diabo abate a febre tornou Cahn. Não sei quem em Berlim já fez a experiência. Não abate nada.
- Não abate? Ou esse alguém está louco ou eu – mas duvido muito que seja eu.
- Que quer dizer?
- O que estou dizendo. Sabe? Aquele meu doente com bicharia nas tripas? Pois esta manhã estava com a temperatura cinco graus acima do normal. Dei-lhe uma dose desta naftalina e meia hora depois a temperatura desceu para o normal. Quem é o louco?
- Deixe-me ver isso, disse Cahn passando a mão no frasco de naftalina; era o mesmo que Schmidt trouxera, o de rotulo estragado; Cahn cheirou-o. Espere, Paul. Isto não é naftalina! Não tem cheiro de naftalina!...
Hepp arrepiou-se.
- E não sabemos o que é. E eu podia ter matado aquele camarada lá na clinica! Escute: tenho um primo na fabrica de anilina de Biebrich. E se o mandasse fazer a analise dito? Estou tonto...
Semanas depois os dois jovens de Strasburgo mandavam um resumido artigo a um jornal de medicina de Berlim. “Por um feliz acidente”, diziam eles, “um novo composto nos veioter às mãos, o qual se revela um excelente febrífugo”. Investigado pelo Dr. E. Hepp, em Biebrich, verificou ele ser uma substancia de há muito conhecida dos químicos – a acetanilida ... a qual desejamos dar o nome de antifebrina.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sábado, 19 de novembro de 2016

A descoberta da antipirina abre a fábricação de medicamentos sintéticos

Em 1883 Ludwig Knorr, com 24 anos e então na Universidade de Wurzburg, estava empenhado em descobrir qual a molécula de quinina que atuava como febrífugo. Outros cientistas procuravam a mesma coisa por um método diferente; desdobrando a quinina e estudando as partes, Knorr fez o contrario – tomava elementos químicos, ligava-os e testava o produto.

Planejou no papel sintetizar alguma coisa equivalente a quinina por meio da mistura de metil-fenil-hidrazina com algum etil-aceto-acetato. O produto pratico dessa formula apareceu sob forma de cristais brancos lamelares,solúveis em água e álcool. “Bem” pensou Knor “tenho aqui o meu febrífugo sintético. E agora? Que fazer com ele?”endia de febre e febrífugos.
S, estudante na universidade de Erlangen, o qual entendia de febre e febrífugos. E escreveu-lhe: “Caro Dr. Filehne – recordo-me que anos atrás o senhor fazia experiências com febrífugos com a quinina. Saiba que sintetizei em meu laboratório um novo composto que, fora de duvida, é uma espécie de quinina. Pode ter a bondade de testar isso e beneficiar-me com a sua experiência e profundo conhecimento”?
A cinquenta milhas dali, em Erlangen, o bom Dr. Filehne, sorriu ao ler aquilo, e pôs-se a experimentar a droga de Knorr, como já havia testado tantas, todas muito promissoras, mas... “mais uma agora! Bem. Se me sobrar algumas horas na semana entrante...”
Dias depois o Dr Filehne já não sorria. Aquilo lá do jovem Knorr não era uma droga nova – era quase a própria quinina em pessoa! Não curava a malária, mas em todas as outras febres – na da pneumonia, da tuberculose, da erisipela, na tifoide e na tisica a droga de Knorr parecia miraculosa. E sem perigo nenhum...
“Meu caro amigo”, escreveu-lhe Filehne, “não sei o que o seu produto é, não conheço a formula; mas trata-se dum febrífugo dos mais notáveis que tenho visto. Se ainda não lhe deu nome, sugiro um antipirina, do grego pyretos, febre”.
O novo remédio não era tão maravilhoso como Filehne queria. Não valia a quinina já qu não curava a malária, e também não curava os casos comuns de febre. Mas era uma excelente droga, merecedora de entusiasmo provocado.
Com a lembrança ainda fresca do caso do acido salicílico no reumatismo, os médicos muito naturalmente testaram a antipirina no tratamento dessa Verificaram-lhe o efeito nas dores das juntas, nas dores de cabeça, nas dores das costas e na nevralgia.
Só depois do acumulo de toda essa massa de informação é que Knorr subitamente descobriu o seu erro. Havia empreendido produzir um derivado sintético da quinina que fosse febrífugo (e só por essa razão é que mandou a droga era efetiva nas febres e em muitas outras coisas mais – mas não era um derivado da quinina. Tinha tanto a ver com a quinina como a serragem de madeira.
A antipirina era algo novo, um produto químico absolutamente inédito.
Cuidadosas experiências de laboratório provaram que a reação teórica entre a metil-fenil-hidrazina e o etil-aceto-acetato não se confirmava na pratica. Em vez de dar o que fora previsto, dava coisa inteiramente nova.
A antipirina foi a primeira grande droga produzida sinteticamente. Sua descoberta veio marcar o inicio dum negocio novo – a grande indústria das drogas sintéticas.

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ácido Salicílico encontra seu caminho junto às febres.

Durante os anos de 1873 e 74 o tom dos relatórios médicos sobre o acido salicílico foram de entusiasmo, mas depois do tempo da novidade as coisas começaram a arrefecer. Todos os médicos concordavam num ponto, que o acido salicílico fazia o doente sentir-se melhor; mas muitos passaram a admitir que os doentes que se curavam eram os mesmos que sarariam sem remédio nenhum. A media de mortes em tais e tais doenças permanecia inalterada. As vitimas da febre tifoide reagiam bravamente sob a ação do acido. Horas depois de ingerida a droga a febre caia e os doentes reviviam. Mas dias depois morriam. Isto acontecia com os doentes de tifo, pneumonia entre outras doenças.

Salix alba

A explicação do curioso fenômeno foi dada por um jovem medico suíço. Lá em um hospital provinciano, no cantão de Saint Gallen, Carl Emil Buss, impressionou-se com aquela historia de acido salicílico. Seus mestres lhe haviam dito que a droga agia como o acido carbólico, matando os micróbios e, pois, curando os doentes; mas as suas observações pessoais não mostravam bem isso. Então, o que realmente acontecia?
Buss procurou dar respostas as suas perguntas. Foi ao arquivo dos seus boletins e começou a consulta-los. Lá estava o caso de Pauline Strauss – febre tifoide, 14 dias no hospital, acido salicílico dado diariamente. Duas horas depois de tomado o remédio a temperatura caíra e ela se sentira aliviada – mas no 15 dia morreu. E lá estava o caso do pequeno Muehlhausen – pneumonia, febre alta; salicílico três vezes por dia; três quedas da temperatura e depois morreu. E estava lá o caso de Johann Bischoff, reumatismo nas juntas; com a dor acompanhada de febre alta. Tomou salicílico. A temperatura caiu e Bischoff deixou o hospital curado. Mas esse caso não era importante, porque reumatismo não mata ninguém.
O jovem Dr Buss coçou a cabeça, com os olhos fixos nos cartões. Aquilo era estranho e talvez não tivesse importância, mas estava lá. Se uma pessoa com febre toma acido salicílico, cai a febre! Seja lá o que aconteça, morra ou sare o doente, uma dose de salicílico é sempre seguida de queda da febre. E se a febre volta, nova dose a faz recuar. No entanto o tal ácido não era conhecido como febrífugo. O febrífugo por excelência era a quinina; e depois da quinina, banhos frios e drogas fracas e incertas como o álcool, a veratria, o acônito, a casca de salgueiro...Eureca!!!! É da casca de salgueiro que é retirada o acido salicílico. A casca de salgueiro vinha a séculos sendo usada pelos supersticiosos, remédio de gente ignorante.
Também havia acido salicílico no óleo de pirola antiquíssimo remédio para febre e reumatismo.
As temperaturas, agora. O que fazia o salicílico nesse setor? De volta á enfermaria Buss deu exclusivo tento a esse ponto. Não lhe importava que o doente morresse ou sarasse. O que queria era resposta a essa pergunta urgente: que faz o acido salicílico com a temperatura?
Depois de analisar diversos caso suas conclusões foram mandadas a um jornal medico de circulação mundial. “O acido salicílico”, anunciou Buss, “tem em minhas mãos reduzido a febre em todos os casos...Não importa a causa da febre”.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

domingo, 6 de novembro de 2016

Kolbe, o ácido salicílico e a loucura experimental.

No dia seguinte, depois de Kolbe ter prometido a Tjiersch que conhecia a formula para sintetizar o ácido salicílico extraído do ácido carbólico, foi bem cedo ao laboratório da Universidade de Leipzig, atravessou as salas, passou, sem dizer nada aos estudantes e entrou em seu gabinete . De lá, pela porta entreaberta, deu uma ordem seca.
- Otto, um pouco de acido carbólico! Frederick prepare o gerador de dióxido de carbono. E você Ludwig, traga o novo frasco de soda caustica.

Meia hora depois aquele terrível inimigo do erro, que era Kolbe, estava cometendo o maior dos erros que a historia química menciona – um abençoado erro que iria abrir todo um novo campo da terapêutica!
- Olha aqui, disse Kolbe a um de seus assistentes. Vou repetir uma pequena experiência que realizei há anos em Marburg. Otto faça o favor – a folha... Vamos produzir um pouco de acido salicílico – passe-me esse tubo, Ludwig! – e vamos matar micróbios. Estão ouvindo rapazes? Vamos curar todas as doenças do mundo. Vamos de agora em diante ser matadores de germens.
- Mas, Herr Professor, nós somos químicos, alegou um dos rapazes. Não sabemos matar germes. Como vamos começar?
Kolbe olhou-o de esguelha.
- Começar? Ach, estamos já quase no fim. Enquanto
Vocês moços dormiam, eu meditava. Enquanto vocês jogam e brincam, o professor pensa.
Os assistentes entreolharam-se e deram de ombros.
- Herr, professor, disse Ludwig, enquanto estávamos jogando e brincando, que é que o senhor pensou?
- Pensei, respondeu Kolbe, que vamos produzir algum acido salicílico e com ele matar germes.
- Mas...
- Faça o favor de não discordar. Querem saber por que o acido salicílico vai matar germens? Direi.  Porque o acido salicílico lentamente se transforma em carbólico e o acido carbólico mata germes.
- Mas então porque não usa o ácido carbólico?
Kolbe desfranziu a testa.
- Ach, que assistente tenho eu! Porque o acido carbólico é muito perigoso e o acido salicílico é perfeitamente seguro. Se você apanha o cólera, tudo o que tem a fazer é tomar uma Boa solução de acido salicílico, que é perfeitamente seguro – e estará livre dos micróbios do cólera.
Tudo isso não passa de suposições teóricas, fáceis de serem testadas, de modo que aqueles estudantes de Leipzig sem mais delongas se viram transformados em caçadores de micróbios. O primeiro passo, a produção de ácido salicílico, foi coisa fácil para tão hábeis químicos, mas aquilo em germes e micróbios isso já seria outra historia. Nenhum deles tinha a menor técnica a respeito.
E encheram o laboratório de vasilhas de carne em decomposição ou leite azedo. Desajeitadamente procuravam no microscópio os pequeninos asfixiavam-se com o cheiro de carne podre. Procuravam impedir a fermentação do chope de Leipzig e matar terríveis assassinos microscópicos em cadáveres humanos.
Kolbe não sai dali.
- Rapazes, vocês viram que este leite azeda em três dias, mas que se lhe juntarmos acido salicílico permanece fresco por uma semana. Ótimo, ótimo! Foi o acido salicílico que o preservou. Como? Transformando-se em ácido carbólico! E Kolbe ia enchendo o bolso com papei de anotações.
- Com que então, Otto, o acido salicílico impediu por um mês que esta carne apodrecesse. Ótimo, Otto! Ótimo!
- Verificou que o acido salicílico impede o vinho de azedar, Ludwig? Excelente, meu rapaz. Excelente!
E foram meses e meses daquele trabalho, daquela loucura experimental.
Kolbe e seus auxiliares faziam centenas de testes, mas com a maior imprecisão. Eram testes que se fossem feitos em outro laboratório incorreriam na severa censura de todos. Mas, ali, estavam procurando provar uma teoria...


 Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Descoberta da aspirina para cura de todos os males

- Os médicos, declarou o químico Hermann Kolbe, são todos uns trapalhões.
- Inclusive eu? Perguntou o cirurgião Karl Thiersch.
- Claro. Inclusive você, meu amigo.
- E por que, Hermann?
Kolbe fungou.
Hermann Kolbe, qumico 
- Vou dizer porque. Olhe esse louco do Pasteur, lá na França. Se um dos meus alunos não trabalhasse melhor que ele, imediatamente eu o expulsaria do laboratório!
- oh!!... E outras razões?
Kolbe fungou outra vez.
- Considere o caso do seu grande amigo Lister. Veja como manipula o acido carbólico. É por milagre de Deus que ele nãose mata a si mesmo e a todo mundo.
O Dr. Thiersch ponderou sobre o caso.
- Talvez você tenha razão, Kolbe. Pasteur e Lister erram de vez em quando. Mas fazem grandes coisas. Ambos salvaram muitas e muitas vidas.
- Ach, tolice! Como podem fazer bem, se estão continuamente, cometendo erros? Eu, por exemplo, não erro.
Nunca em minha vida errei.
- Hum! Fez Thiersch
- Sim, continuou Kolbe, tenho desprezo pelos que erram.
- Se eu o não conhecesse muito bem, Kolbe, me sentiria ofendido e virava os calcanhares – mas vim aqui a procura de conselhos sobre o acido carbólico. Conselhos ou informações químicas.
- Informações químicas? Bom. Isso é diferente. Que deseja saber? Retiro os meus insultos, disse Kolbe piscando os olhos bem humoradamente.
- O caso é sério, Hermann. Ando pensando em dar acido carbólico z alguns dos meus clientes – em caso de tifo, tuberculose e crupe, mas esse acido é muito perigoso. Haverá qualquer outro produto químico menos ofensivo e que lá dentro do corpo se transforme em acido carbólico?
-É isso? Pois veio bater na porta certa. Há o que você quer e justamente fui eu o descobridor. Chama-se ácido salicilico.
-Realmente?
- sem duvida. Vinte anos atrás eu o produzi. Descobri meio de sintetizar o acido salicílico extraindo-o do carbólico, e depois verifiquei que este acido salicílico volta a ser carbólico novamente. - É admirável! Exclamou Thiersch. Mas acha que agirá assim no organismo?
- Certamente que agirá. Que é o corpo humano senão um tubo de laboratório? Garanto que agirá. Mas amanhã meus rapazes produzirão acido salicílico e nós verificaremos o ponto – Obrigado Hermann. Mas cuidado, hein?..
- Com o que?
- Cuidado! Não vá cometer algum erro...
- Absurdo!

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Alemães queriam trocar remédio contra a doença do sono por suas colonias na África

A coisa começou como murmúrios: “Soube da história? Parece que os alemães descobriram o específico de alguma doença tropical.” O que seria? O mundo ignorava. Portas a dentro do Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo, um pequeno exército de cientistas trabalhava furiosamente, em silencio. Cada semana um dele voava ao departamento de Saúde de Berlim, ou a grande fábrica Bayer em Elberfeld, mas não divulgava nenhuma informação. Até o ano de 1920 nada transpirou do que se passava dentro do laboratório, mas no fim desse ano um químico cochichou para um colega na Inglaterra; “Fui informado de que na Alemanha estão fazendo provas dum específico para a doença do sono”, e a novidade espalhou-se.
pacientes com doença do sono em Moçambique
Doença do sono ou tripanossomíase africana é uma doença frequentemente fatal causada pelo parasita unicelular Trypanosoma brucei. Há duas formas: uma na África Ocidental, incluindo Angola e Guiné-Bissau, causada pela subespécie T. brucei gambiense, que assume forma crônica, e outra na África Oriental, incluindo Moçambique, causada pelo T. brucei rhodesiense. Ambos os parasitas são transmitidos pela picada da mosca tsé-tsé (moscas do gênero Glossina que são seu vetor).  A infecção ataca o sistema nervoso central, causando distúrbios neurológicos graves. Sem tratamento, a doença é fatal. Hoje a doença coloca em risco 60 milhões de pessoas.
mosca tsé tsé vetor do Trypanosoma brucei
Porque isso era em 1920, tempo em que a infernal doença estava devastando as colônias inglesas da África e as tomadas aos alemães durante a guerra.
O Colonial Office foi bombardeado de intimações da Inglaterra inteira. “Nada poupem para descobrir qual a nova droga alemã. Faz-se imperativo que tenhamos a dianteira no tratamento da doença do sono.”
Os pobre cientistas ingleses não conseguiam a menor informação sobre a descoberta alemã e aconselhavam ao governo que mantivesse calma e acreditavam que quando os alemães concluíssem os estudos, anunciariam a droga e diriam do que se tratava.
Porém o calculo dos ingleses não deram certo. Ao anunciarem a droga os alemães fizeram de um modo sem precedente nos anais da história. “Nós aperfeiçoamos uma nova droga que se revelou o remédio específico para a doença do sono africana. Demos o nome de Bayer 205, ou germanina. Mas no momento não estamos preparados para apresentar a fórmula”.
- Escutem aqui! Clamavam os ingleses. Vocês não podem fazer isso! Não é assim que verdadeiros cientistas procedem...
Mas os alemães calaram-se e continuaram a testar o 205 em mais ratos, mais coelhos e mais cavalos. Quando plenamente convencidos de que o 205 era inócuo para animais, ousaram fazer experiência em criaturas humanas- e por ironia do destino este humanos eram ingleses vindos da África com a doença do sono e foram a Alemanha em busca da cura. Ao retornarem de Hamburgo para a Inglaterra, perfeitamente curados, isso ainda mais assanhou os ingleses.
Os pedidos do Bayer 205 choviam, mas a resposta dos alemães era sempre: “Podemos mandar o 205 na quantidade que quiseres, mas com a condição de dardes a palavra de honra de que não fareis nenhuma analise do medicamento, nem o dareis para que outros o façam”...
Os médicos ingleses, franceses, belgas e holandeses tiveram de aceitar as imposições germânicas.
Nu a reunião em Hamburgo um orador pôs as cartas na mesa.
“O Bayer 205 é fundamental para a África tropical e, por consequência, a chave de todas as colônias. O governo alemão deve salvaguardar essa descoberta para uso exclusivo da Alemanha. Seu valor é tal, que qualquer participação em seu uso, por parte de outras nações, tem que basear-se numa condicional: a restituição das colônias alemãs tomadas durante a guerra”.
O barulho foi grande. Os homens de governo, os cientistas e estadistas dos países visados bradavam “Traição”! Nesta época a formula do Bayer 205 valia um bilhão de dólares.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sábado, 15 de outubro de 2016

Os metais venenosos se tornam remédios

Chamuloogra odorata
A marcha durante os últimos anos de vida de Ehrlich foi muito agitada e os cientistas de sua época mal tinham tempo para respirar. E assimilar as lições do grande mestre. Sobreveio a primeira guerra mundial e só em 1918 foram retomados as pontas de fio deixados por Ehrlich. Ele havia provado que um metaloide como o arsênico podia ser domado por meio de complexas combinações, e agora outros cientistas procuravam fazer a mesma coisa com outros venenos. Tomaram sais de mercúrio, infernais compostos que também tinham sido usados na luta contra a sífilis, e transformaram-nos em seguros antissépticos, como o metafen, o mertiolato, o mercurocromo. Tomaram esse estranho metaloide antimônio e o apetrecharam para o combate da doença do sono na África, da ulcera e da terrível Calazar na Índia, China e países do mediterrâneo. Tomaram o bismuto e o transformaram em sobisminol, para o tratamento oral da sífilis – magnifica realização de Paul Hanzlik na Universidade de Stanford.
Alguns cientistas admitiram que o 600 não fosse mais o único composto de arsênico aproveitável na sífilis e graça aos trabalhos de Heidelberger, Jacobs, Brown e Louise Pearce (da Fundação Rockefeller), apareceram a triparsamida, para a doença do sono e a sífilis cerebral. Ernest Fourneau, do Instituto Pasteur, desenvolveu o stovarsol, também para a sífilis. E veio o carbarsone, começado nos dias febris de Ehrlich e Bertheim e abandonado porque não matava os tripanossomas; mas Leake, Anderson e Ghen, da Universidade da Califórnia verificaram que exercia efeito sobre as amebas. E surgiu o melhor remédio para a desinteira amebiana, infelizmente não a tempo de atender ao surto dessa moléstia “tropical” na nada tropical cidade de Chicago.
E veio o mafarsen, que Ehrlich achou muito toxico para ser dados aos sifilíticos, mas que outros sábios puseram no ponto.
E veio a tripaflavina, um belo colorante que Ehrlich não aprovou porque não matava o tripanossoma mas que um seu aluno escocês, Carl Browning verificou ser um matador de bactérias e usou as carradas nos soldados feridos.
Na América o professor Tracat Johnson e o jovem Frederick Lane, de Yale, e Veader Leonard, da John Hopkins também seguiram uma pista deixada por Ehrlich transformando o inútil ressorcinol em hexyressorcinol.
Enquanto isso drogas totalmente novas entravam no giro e na fama. O óleo de chaulmoogra, poderoso, mas horrível remédio da lepra usado já de séculos, foi estudado por um americano, Frederick Power, que extraiu o primeiro princípio ativo o ácido chaulmoogrico.


Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943

sábado, 8 de outubro de 2016

Do 606 ao 914 Ehrlich e Hata acham a cura da Sífilis

Certo cientista escreveu uma coisa fantástica: os tripanossomos eram primos duma diferente raça de micróbios – dos micróbios causadores da sífilis. “Se o meu 606 mata o tripanossomo”, ponderou Ehrlich, “talvez também mate o micróbio da sífilis”.
Ehrlic e Hata em Frankfort
Nesse momento crucial um novo assistente lhe veio de Tóquio – S. Hata. Ehrlich pôs-se a trata-lo como escravo, mas Hata não se queixava, não se descuidava nunca. E aquele prodigioso japonês era perito em lidar com micróbio da sífilis e em inocula-los em coelhos e macacos.
Logo que as gaiolas se enchiam destes animais, eram entregues a Hata. Hata ria-se para eles. Hata cuidava deles. Hata dava-lhes de comida, mas também os enchia de ulceras sifilíticas. Mas se Hata contaminava de sífilis também os curava com injeções de 606. Porque, por mias incrível que até o próprio Ehrlich parecesse o 606 curava a sífilis!
Curava-a em coelhos e macacos – mas no homem? Nos homens nas mulheres e nas crianças pesteadas pela sífilis, doença contra a qual ainda nada se puder fazer? Cura-los-ia o 606?
Antes de qualquer coisa, era preciso que Ehrlich se convencesse da segurança do 606, e isso tomou dois anos – dois anos em que até o incansável Hata iria tornar-se um pouco impaciente com os infindáveis testes em coelhos, macacos e ratos e mais ratos. No meio daquela febre, recebeu Ehrlich a noticia de que ganhara o premio Nobel – não pelo 606 que não havia anunciado ainda – mas pelos seus primeiros trabalhos sobre células sanguíneas e a teoria da imunização.
Mas, afinal, em setembro de 1909, determinou Ehrlich que a prova em seres humanos não podia ser adiada por mais tempo, e mandou o 606, cuidadosamente selado em recipientes próprios, a Conrad Alt em Uschtspringe, ao Prof. Hreiber em Magdeburg e a outros amigos de confiança em Praga e Saraievo. Também mandou a Julis Iverson em São Petersburgo para testes em febre relapsa, uma doença causada por um parente próximo do micróbio da sífilis.
“Experimente isso em seus doentes”, escreveu-lhe Ehrlich, “e comunique-me sem demora os resultados. Sobretudo os maus resultados. Mas de forma nenhuma fale nessas experiências a ninguém. Não quero levantar esperanças prematuras...”
Em abril de 1910 os primeiros resultados vieram, e os amigos de Ehrlich forçaram-no, bastante a contra gosto, a fazer esta declaração perante o Congresso de Medicina em Wiesbaden – e imediatamente o mundo se voltou para o magico de Frankfort. Poucas pessoas haviam dado atenção aos anteriores estudos sobre colorantes e células do sangue e as desnorteantes teorias de Ehrlich; mas lá estava um homem que havia curado a sífilis, essa velha e horrorosa doença.
Vinham doentes implorar a cura. De todos os pontos do mundo chegavam cartas pedindo socorro e conselho, ou pedindo emprego e dinheiro, ou indagando se flores de batata curavam o cancro, ou pedindo autografo, ou apresentando congratulações e votos de felicidade. Grandes figurões também apareciam, e médicos famosos, e cientistas, e personalidades oficiais, e a todos Ehrlich atendia, sempre polido e serviçal.
Ehrlich procurava explicar tudo, fazer toda gente feliz, na mais completa ignorância do mundo que o rodeava e da inutilidade das explicações. E mesmo quando de seu laboratório saiu o 914, ou “neosalvarsan”, ainda melhor e mais seguro que o 606 no ataque a sífilis, muita gente ainda continuou insatisfeita.
Paul Ehrlich morreu em 1915, e com ele desapareceu o mais pitoresco e valente de todos os caçadores de micróbios. No fim, pálido e anêmico, terrivelmente cansado, ainda se inquietavam num ponto: a sua tarefa não estava terminada.
- Ah, se eu dispusesse de um bocadinho mais de vida... Há tanta coisa a fazer ainda...

Bibliografia: Mágica em Garrafas, A história dos Grandes Medicamentos – Milton Silverman – tradução de Monteiro Lobato – Cia Editora Nacional 1943